Bill Gates, a tecnologia é um mundo que precisa ser governado
Terça-feira, 13 de Outubro de 2026
Entrevista com o ex-CEO da Microsoft sobre os riscos potenciais associados ao crescimento da inteligência artificial: trata-se de um setor que não pode se autorregular, explica ele, e deve ser orientado pelos governos. Também é preciso agir para aproveitar as oportunidades da IA nas áreas da saúde, educação e agricultura.
“Não estamos prestando suficiente atenção aos riscos” da inteligência artificial e “não estamos fazendo o suficiente para minimizar os danos. Também não estamos fazendo o suficiente para aproveitar as oportunidades atuais que a inteligência artificial oferece”. Assim afirmou Bill Gates, cofundador e ex-diretor executivo da Microsoft, nesta entrevista à mídia vaticana, na qual, sobre a encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão, ele diz: “fiquei impressionado não por ele dizer ‘parem a inteligência artificial’, mas por afirmar que ‘devemos preservar ativamente o que há de humano’. Isso coincide com o que eu também defendo”.
Senhor Gates, nas últimas semanas, muitas vozes do setor tecnológico expressaram preocupação com os perigos potenciais associados ao desenvolvimento da inteligência artificial. O que o senhor acha disso?
É impressionante como pessoas do setor estão dando voz às suas preocupações. Trata-se de pessoas que competem entre si e discordam em muitas questões, mas que, neste caso, estão dizendo a mesma coisa: nesse aspecto, o setor não pode se autorregular, deve ser orientado por atores neutros, em primeiro lugar os governos. O problema é que a maioria das pessoas no governo não compreende plenamente como a tecnologia funciona.
Acredito que não estamos prestando atenção suficiente aos riscos e que não estamos fazendo o suficiente para minimizar os danos. Também não estamos fazendo o suficiente para aproveitar as oportunidades atuais que a inteligência artificial oferece. No mês passado, nossa Fundação publicou o relatório anual “Goalkeepers Report”, que afirma que a inteligência artificial pode ser um grande fator de igualdade ou ampliar a disparidade existente entre ricos e pobres. A inteligência artificial pode fazer coisas como permitir que médicos de zona rural usem o smartphone como um aparelho de ultrassom, oferecer apoio educacional personalizado que se adapte à maneira como o aluno realmente aprende e fornecer recomendações sob medida com base nas características do solo e nas condições climáticas específicas de cada agricultor. Mas nada disso acontece automaticamente.
Se deixados à mercê do mercado, as ferramentas mais eficazes serão desenvolvidas primeiro para quem puder pagar mais, e não para quem mais precisa delas. Por isso, nos próximos dois anos, destinamos um bilhão de dólares para promover a inteligência artificial nos setores da saúde, da educação e da agricultura, justamente nos locais onde as forças de mercado chegariam por último. O risco e a oportunidade andam de mãos dadas, e precisamos agir em ambas as frentes ao mesmo tempo.
De maneira mais geral, como o senhor vê o futuro de uma sociedade cada vez mais orientada pela tecnologia?
A inteligência artificial é diferente de qualquer outra tecnologia que já vimos até agora. No caso de inovações do passado, como o PC ou a internet, o processo começou com algumas grandes mudanças, mas, no fim das contas, tudo se resolveu e as pessoas acabaram tendo acesso a ferramentas melhores. A inteligência artificial é diferente. Ela se assemelha mais a um evento evolutivo. Criamos um tipo de inteligência que, em muitos aspectos, se equipara ou supera a cognição humana. Tratá-la simplesmente como “o próximo PC” faz com que as pessoas a subestimem completamente.
Podemos imaginar o futuro como dois períodos distintos. Atualmente, estamos em uma fase de transição na qual ainda não temos os benefícios em grande escala em todos os lugares, mas assistimos a uma verdadeira revolução. Isso se aplica mais aos países ricos do que aos de renda mais baixa. Nos locais onde a Fundação atua, os benefícios podem se manifestar mais rapidamente do que os incômodos, pois, desde o início, havia uma enorme quantidade de necessidades não atendidas. Mas isso só pode funcionar se resolvermos problemas como o fato de que a maioria dos modelos de inteligência artificial foi treinada predominantemente em inglês, negligenciando assim fortemente os bilhões de pessoas que falam outras línguas. Neste momento, portanto, é necessária uma mudança real em várias frentes, incluindo a forma como tributamos o trabalho em relação à automação, quais atividades reservamos deliberadamente para os seres humanos e como garantimos que a tecnologia chegue efetivamente às pessoas que mais se beneficiariam dela, e não apenas àquelas que podem pagar mais.
Então, uma vez superada essa fase de transição, se conseguirmos implementar as medidas de segurança e garantir um acesso adequado, poderemos nos deparar com um mundo de verdadeira abundância: inteligência artificial e robôs humanóides que cuidam da alimentação, da moradia e de outras necessidades básicas. Esse período levantará uma série de questões completamente diferentes sobre o significado e sobre como as pessoas passarão seu tempo. No momento, meu objetivo principal é fazer com que superemos os próximos anos sem que ocorram ataques bioterroristas catastróficos ou incidentes relacionados à segurança cibernética, e sem deixar para trás amplos segmentos do mercado de trabalho ou vastas regiões do mundo.
O presidente Trump, por outro lado, minimizou os riscos potenciais do desenvolvimento da inteligência artificial. O senhor concorda com a posição dele? Que papel os líderes políticos deveriam desempenhar nesse debate?
Essa tecnologia é mais perigosa do que as armas nucleares e tem o potencial de ser mais benéfica do que a energia nuclear. Adotar controles básicos de segurança quase não acarreta perda de velocidade e reduz significativamente os riscos. É um compromisso que vale a pena aceitar.
Os líderes governamentais devem primeiro chegar a um consenso sobre os fatos fundamentais — ou seja, que existem perigos reais e benefícios reais — e, em seguida, discutir os detalhes da resposta. Precisamos de maior expertise em inteligência artificial nos governos, de governos que trabalhem com o setor e de governos que trabalhem juntos, pois nenhum país quer que o bioterrorismo ou um ataque cibernético paralisem sua infraestrutura.
Temo que seja necessário um ataque cibernético grave ou um episódio sério de bioterrorismo para que o sistema político encare a questão com toda a seriedade que ela exige.
Não, minha decisão foi uma transição, gradual e planejada, para a filantropia e meu trabalho na Fundação Gates, que ocorreu há mais de dez anos.
O senhor leu a encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão? O senhor concorda com as reflexões dele sobre a inteligência artificial?
Sim, eu a li e falei sobre ela em uma nota interna que escrevi em agosto. Fiquei fascinado. Ela estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa ser feito. O que me impressionou foi que o Papa não diz “parem a inteligência artificial”. Seu argumento é mais ponderado: ele defende que, diante de tudo isso, devemos preservar ativamente o que há de humano. Isso coincide com o que eu também defendo. Existem algumas tarefas, como cuidar de crianças, a função de juiz ou jurado e, na área da medicina, cuja essência é justamente o relacionamento. Não deveríamos entregar essas tarefas a um modelo apenas porque ele se tornou capaz o suficiente para realizá-las. Fico muito feliz em ver a Igreja Católica e outros grupos religiosos tão envolvidos no debate sobre a inteligência artificial; acredito que o compromisso deles seja fundamental para garantir que a inteligência artificial sirva a todos da maneira mais justa possível.
Fonte: Vatican News<br />https://www.vaticannews.va
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